O equilíbrio competitivo entre equipes que disputam campeonatos nacionais de futebol representa o grau de igualdade no desempenho dos times que participam dessas competições. Nesse sentido, a expressão refere-se à distribuição do potencial esportivo das equipes rivais, traduzindo uma medida do equilíbrio de forças entre elas, em cada temporada.
As equipes de futebol, como as firmas, competem entre si em campeonatos que representam um mercado sem entrada e saída de concorrentes (ao longo da disputa de cada campeonato), em busca da conquista de pontos que representam a participação de cada equipe no mercado. Nesse sentido, é possível utilizar algumas medidas que traduzem a dispersão de uma distribuição ou o grau de poder de mercado que existe nesses campeonatos. Neste último caso, um indicador particularmente interessante é o índice de Herfindahl-Hirschman.
O índice de Herfindahl-Hirschman é uma forma elaborada de mensurar a concentração industrial, levando em conta a participação relativa de todas as empresas da indústria. No caso de um campeonato de futebol, o índice é definido como:
,
onde si é a participação percentual dos pontos ganhos pela equipe i no campeonato de um determinado ano e N é o número de equipes participantes do campeonato em um determinado ano.
No contexto de uma indústria, o valor do IHH está entre 0 (número infinito de firmas, cada uma com exígua participação no mercado) e 1 (monopólio). Em um campeonato de futebol, as restrições impostas pelo número de equipes participantes e pelo sistema de pontuação fazem com que o IHH permaneça em um intervalo mais restrito. Para um campeonato com 20 equipes, o limite inferior do IHH é 0,05 (valor obtido em um campeonato perfeitamente equilibrado, onde cada equipe empata todos os seus jogos ou tem o mesmo número de vitórias, empates e derrotas que seus oponentes), enquanto o limite superior é 0,0684 (valor obtido em um campeonato perfeitamente desequilibrado, com a distribuição de pontos ganhos mais desigual possível – o time campeão vence todos os seus jogos; o segundo colocado vence todos os seus jogos, exceto contra o campeão; o terceiro colocado vence todos os seus jogos, exceto contra o campeão e o vice-campeão, e assim por diante).
O IHH tem uma amplitude menor do que aquelas geralmente encontradas nos estudos que mostram a concentração nos diversos setores industriais. Isso ocorre porque nenhuma equipe pode se apropriar da totalidade dos pontos de um campeonato, mas apenas dos pontos referentes aos jogos de que participa. Assim, apenas para fazer um paralelo com temas de economia industrial, uma firma monopolista pode deter a totalidade das vendas de um mercado, mas uma equipe pode, no máximo, apoderar-se da totalidade dos pontos que disputa, caso vença todos os seus jogos.
Considerando essas características, assim como para permitir comparações temporais e espaciais, construiu-se um IHH normalizado, que leva em conta os diferentes números de equipes participantes dos campeonatos, neutralizando eventuais alterações no limite inferior e no limite superior dos indicadores. Esse indicador modificado é definido como:
.
O valor do indicador normalizado está dentro do intervalo fechado de 0 até 1, onde 0 representa um equilíbrio perfeito entre as equipes (que seria análogo a um mercado perfeitamente competitivo) e 1 indica um desequilíbrio máximo entre as equipes (que seria análogo a um mercado monopolista). Portanto, quanto mais próximo de zero for o IHH*, mais equilibrado é o campeonato, no sentido de que as equipes são bastante parecidas entre si.
Deve-se observar que o cálculo do equilíbrio competitivo só é possível quando o campeonato é disputado pelo sistema de pontos corridos, permitindo uma mensuração cuidadosa e passível de comparações ao longo do tempo e mesmo entre campeonatos. No caso do Brasil, esse sistema de pontuação iniciou-se em 2003 para a série A e em 2006 para a série B, facultando uma análise apenas para os últimos anos.
Os resultados encontrados para o campeonato brasileiro de futebol foram os seguintes:
IHH* do campeonato brasileiro de futebol
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Divisão
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2003
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2004
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2005
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2006
|
2007
|
2008
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Média
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|
Série A
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0,1129
|
0,1173
|
0,0867
|
0,1414
|
0,1299
|
0,1192
|
0,1179
|
|
Série B
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0,0730
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0,0741
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0,1581
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0,1017
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Resumidamente, os resultados mostram que o equilíbrio competitivo da série A do campeonato brasileiro de futebol vem sendo bastante elevado desde 2003 e que o equilíbrio competitivo da série B é maior do que a série A, exceto em 2008, quando a participação do Corínthians na série B levou a um desequilíbrio na disputa, tamanha a diferença na qualidade das equipes.
Para efeito de comparação, os mesmos cálculos foram feitos para alguns campeonatos europeus. Os resultados estão resumidos no quadro a seguir, onde são apresentadas apenas as médias dos últimos seis campeonatos (2002-2003 a 2007-2008).
Em comparação com alguns países europeus, o equilíbrio competitivo do futebol brasileiro é nitidamente maior. Além disso, é possível notar o mesmo padrão de equilíbrio competitivo superior da série B em todos os países europeus cobertos pelo estudo.
IHH* dos campeonatos europeus de futebol
(média dos últimos 6 campeonatos)
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Países
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Série A
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Série B
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Alemanha
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0,2021
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0,1388
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Espanha
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0,1797
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0,1039
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França
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0,1482
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0,1303
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Inglaterra
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0,2755
|
0,1361
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Itália
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0,2721
|
0,1610
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Portugal
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0,3215
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0,1822
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As explicações para o maior equilíbrio competitivo do campeonato brasileiro em relação aos campeonatos europeus têm algum fundamento econômico, mas são complexas. No Brasil, pelo menos até agora, os plantéis das equipes vêm-se assemelhando cada vez mais, pois nenhuma delas tem condições financeiras de concorrer com as ofertas que os atletas em ascensão recebem do exterior. Dessa forma, com raras exceções, as equipes têm um foco nacional e há um nivelamento por baixo da qualidade do futebol que vem sendo praticado no país, nos últimos anos. Além disso, por conta de problemas diversos (segurança nos estádios, televisionamento dos jogos), nas grandes capitais a presença do público (e consequentemente a pressão das torcidas em favor das equipes das grandes capitais) vem diminuindo. Nas cidades menores e em outras regiões do país esses fenômenos ocorrem em menor escala, favorecendo as equipes que jogam em casa e que contam com o apoio presencial de seus torcedores. Além disso, as equipes das grandes capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, geralmente defrontam-se em estádios maiores, como o Morumbi e o Maracanã, abrindo mão, de certa forma, da vantagem de jogar em casa. Nesses locais, as torcidas dividem mais ou menos igualmente as arquibancadas, deixando de ser um fator decisivo para a vitória de seus times.
Em relação à série B, as razões provavelmente são um pouco diferentes. Os poucos craques que permanecem no país, geralmente estão em equipes da série A. Ou seja, com exceção do que ocorreu em 2008 no Brasil, os elencos das equipes da série B são realmente bastante limitados e muito semelhantes, fazendo com que a folha de pagamento dessas equipes seja, em geral, relativamente modesta. Isso reflete (e realimenta) o reduzido poder financeiro dessas equipes e a contratação de patrocínios pouco importantes. De outro lado, é possível que o fator campo seja muito mais decisivo nas disputas da série B. Como as equipes, com raras exceções, são relativamente limitadas, seus estádios tornam-se um fator decisivo no resultado dos jogos. Em conseqüência, é possível que o aproveitamente nos jogos em casa tenda a ser maior, contribuindo para um equilíbrio competitivo mais acentuado do que na série A. Ademais, os personagens dos jogos – atletas, árbitro, auxiliares de arbitragem e mesmo dirigentes – ficam menos expostos à mídia, de modo que a presença das torcidas tem um papel mais forte do que o desses personagens.