ECONOMIA EXPOSTA

Fevereiro 9, 2009

Corinthians: na contramão da economia

Arquivado em: Economia, Futebol — Nelson @ 6:15 pm


A Folha de São Paulo publicou no dia 6/2/2009, no caderno Esporte, que o Corinthians viu despencar sua média de público nos três primeiros jogos do campeonato paulista como mandante, comparativamente ao ano passado e também em comparação com a série B.

Segundo o jornal, tendo como uma das justificativas a contratação de Ronaldo e o pagamento de seu salário, a diretoria corintiana aumentou o preço de todos os setores do Pacaembu, principalmente nas áreas mais nobres.

Há pelo menos dois argumentos para explicar a queda da receita. Primeiro, como o clube opera no trecho elástico da curva de demanda, o aumento do preço reduziu a receita. Segundo, provavelmente a curva de demanda se contraiu porque a torcida ficou mais pobre. Alguém tem uma explicação econômica melhor?

Dezembro 26, 2008

Diários de viagem – II

Arquivado em: Economia, Viagens — Nelson @ 8:13 am

 

Na semana do Natal fui para a Alemanha – mais precisamente Herne, uma cidade no vale do Ruhr, a menos de cem quilômetros da Holanda. Para minha surpresa, pude verificar que o preço da gasolina (e do diesel) baixou cerca de 30% desde julho de 2008. Pode não ser muito, mas comparado ao nosso eterno “país do futuro” é uma redução e tanto. Também descobri que os preços afixados pelos postos oscilam alguns centavos durante o dia e mesmo durante a semana. Se o trânsito pára nas proximidades de um posto, é sinal que os preços estão convidativos. Como se percebe, o mercado funciona.

As falsas falsas questões

Arquivado em: Economia — Nelson @ 8:08 am

 

No início dos anos oitenta, quando minha carreira acadêmica engatinhava, houve uma cerimônia de recepção a calouros na faculdade em que eu lecionava, mas o professor convidado que seria responsável pela aula inaugural faltou. A tarefa acabou recaindo sobre um colega mais experiente, que trazia no nome o nome de uma cidade do Sul da Itália. Eram tempos em que a abertura política já permitia críticas abertas, e o ilustre professor não se fez de rogado. Meteu o pau no pensamento dominante, cujo expoente mais simbólico era a teoria do bolo – primeiro crescer, depois distribuir. No ápice de seu discurso ele soltou a pérola: “são falsas falácias!” Ninguém piscou, ninguém sorriu, ninguém manifestou surpresa. Depois do discurso, encontrei com ele num dos corredores da escola, sorri e falei “falsas falácias hein?” No meio do animado grupo em que se encontrava, ele levantou o polegar e perguntou: “você gostou né?” Rigorosamente, o que seriam falsas falácias? Seriam mentiras mal contadas?

Lembrei desse episódio ao colocar em dia a leitura de alguns blogs. Num deles (http://hipona.blogspot.com), de um dileto amigo, encontrei uma postagem de 28/11/2008, intitulada “As falsas cassandras”. O autor do blog registrou o seguinte comentário:

Os números de outubro das contas externas, crédito e contas públicas parecem indicar que a economia brasileira está bem melhor que o retrato pintato por alguns críticos apressados e ate mesmo pelo Vinicius Torres( que não pertence ao primeiro grupo). Ele continua pessimista: “dias piores estão a espreita”, mas reconhece que “os primeiros indicadores sobre o efeito do tumulto mundial sobre o Brasil afinal não pareceram tão impressionantes”. Estou curioso para ver a reação da turma que se passa por economista em Barão Geraldo, Perdizes e alhures.
O cenário, naturalmente, continua delicado, mas continuo otimista. O impacto, como mencionado em outros posts, deverá ser menos dramatico que o sonhado pela oposição e pelas falsas cassandras de plantão. Um elemento chave, neste ajuste rumo a um novo ponto de equilibrio, é o cambio flutuante, detalhe, aliás, que alguns colegas parecem ter esquecido.
É dificil saber qual a origem dos problemas da Petrobrás, mas o pagamento de impostos não me parece ser um argumento muito convincente e, se verdadeiro, seria uma demonstração de incompetência monumental. Problemas no mercado internacional de crédito parece ser a explicação mais plausível. So nos resta esperar…

Ora, a figura mitológica de Cassandra é a de alguém que recebeu o dom de fazer previsões corretas, mas foi condenada a não ser ouvida por ninguém. Portanto, as tais falsas Cassandras de plantão devem ser:

1. aqueles que fazem previsões corretas e são ouvidos por todos; ou

2. aqueles que fazem previsões incorretas, mas não são ouvidos por ninguém; ou

3. aqueles que fazem previsões incorretas e são ouvidos por todos.

A quem o professor estaria se referindo, afinal?

Diários de viagem – I

Arquivado em: Viagens — Nelson @ 8:01 am

 

Por razões familiares iniciei em dezembro uma viagem pela Europa. Para não enfrentar o choque do inverno insuportável, comecei pela Itália e escolhi uma região que ainda desconhecia – a baía de Napoles. Apesar do mau tempo, pude constatar duas ou três verdades que se chocam com o ufanismo do “nossos bosques têm mais vida etc.”

A primeira é que a pizza napolitana é sensacional e melhor que a de São Paulo. A segunda é que a pasta napolitana (qualquer uma, do spaghetti ao fettuccine) é mais do que sensacional e melhor que a de qualquer lugar do mundo. A terceira é que a costa da baía de Nápoles e sua extensão, de Sorrento a Amalfi, é maravilhosa e por vezes mais bela que a costa brasileira. A última é covardia pura – a sfogliatella calda de qualquer espelunca é insuperável.

Dezembro 10, 2008

A dominância no campeonato brasileiro de futebol

Arquivado em: Economia, Futebol — Nelson @ 10:19 pm

 

A dominância de uma ou mais equipes nos campeonatos nacionais de futebol representa a concentração de algumas equipes na classificação final desses campeonatos ao longo do tempo. O termo refere-se ao poder do potencial esportivo dessas equipes, traduzindo uma medida do equilíbrio de forças entre as equipes, durante um determinado período.

Para calcular a dominância de uma ou mais equipes, atribuiu-se, a cada ano, 5 pontos para a equipe classificada em 1º lugar, 4 pontos para a equipe classificada em 2º lugar, 3 pontos para a equipe classificada em 3º lugar, 2 pontos para a equipe classificada em 4º lugar e 1 ponto para a equipe classificada em 5º lugar. Esses pontos foram totalizados e permitiram determinar a participação de cada uma das equipes melhor colocadas a cada período de 5 anos, em relação ao total de 75 pontos (75 pontos, que correspondem à multiplicação de 5 campeonatos por 15 pontos distribuídos entre as 5 melhores equipes em cada campeonato). A partir da participação nos pontos de cada equipe construiu-se um índice de Herfindahl-Hirschman normalizado. A distribuição dos pontos pode ser verificada no quadro a seguir.

 

INDICADORES DE DOMINÂNCIA

2003-2007

2004-2008

 

2003

2004

2005

2006

2007

Total

 

2004

2005

2006

2007

2008

Total

BRASIL

São Paulo

3

3

 

5

5

16

São Paulo

3

 

5

5

5

18

Santos

4

5

 

2

4

15

Santos

5

 

2

4

 

11

Internacional

 

 

4

4

 

8

Internacional

 

4

4

 

 

8

Corinthians

 

1

5

 

 

6

Grêmio

 

 

3

 

4

7

Cruzeiro

5

 

 

 

1

6

Corinthians

1

5

 

 

 

6

Atlético PR

 

4

 

 

 

4

Palmeiras

2

2

 

 

2

6

Palmeiras

 

2

2

 

 

4

Atlético PR

4

 

 

 

 

4

Flamengo

 

 

 

 

3

3

Cruzeiro

 

 

 

1

3

4

Fluminense

 

 

1

 

2

3

Flamengo

 

 

 

3

1

4

Goiás

 

 

3

 

 

3

Fluminense

 

1

 

2

 

3

Grêmio

 

 

 

3

 

3

Goiás

 

3

 

 

 

3

S. Caetano

2

 

 

 

 

2

Paraná

 

 

1

 

 

1

Coritiba

1

 

 

 

 

1

 

 

 

 

 

 

 

Paraná

 

 

 

1

 

1

 

 

 

 

 

 

 

ALEMANHA

Bayern Munchen

5

4

5

5

2

21

Bayern Munchen

4

5

5

2

5

21

Werder Bremen

 

5

3

4

3

15

Werder Bremen

5

3

4

3

4

19

Stuttgart

4

2

1

 

5

12

Schalke 04

 

4

2

4

3

13

Schalke 04

 

 

4

2

4

10

Stuttgart

2

1

 

5

 

8

Bayern Leverk.

 

3

 

1

1

5

Bayern Leverk.

3

 

1

1

 

5

Hamburg

2

 

 

3

 

5

Hamburg

 

 

3

 

1

4

Bor. Dortmund

3

 

 

 

 

3

Hertha Berlin

 

2

 

 

 

2

Hertha Berlin

1

 

2

 

 

3

Wofsburg

 

 

 

 

2

2

Bochum

 

1

 

 

 

1

Bochum

1

 

 

 

 

1

ESPANHA

Real Madrid

5

2

4

4

5

20

Barcelona

4

5

5

4

3

21

Barcelona

 

4

5

5

4

18

Real Madrid

2

4

4

5

5

20

Valencia

1

5

 

3

2

11

Valencia

5

 

3

2

 

10

Deportivo

3

3

 

 

 

6

Vilarreal

 

3

 

1

4

8

Real Sociedad

4

 

 

 

 

4

Sevilla

 

 

1

3

2

6

Sevilla

 

 

 

1

3

4

Deportivo

3

 

 

 

 

3

Vilarreal

 

 

3

 

1

4

Osasuna

 

 

2

 

 

2

Celta Vigo

2

 

 

 

 

2

Real Betis

 

2

 

 

 

2

Osasuna

 

 

 

2

 

2

Athletic Bilbao

1

 

 

 

 

1

Real Betis

 

 

2

 

 

2

Atlético Madrid

 

 

 

 

1

1

Athletic Bilbao

 

1

 

 

 

1

Espanyol

 

1

 

 

 

1

Espanyol

 

 

1

 

 

1

 

 

 

 

 

 

 

FRANÇA

Ol. Lyon

5

5

5

5

5

25

Ol. Lyon

5

5

5

5

5

25

Monaco

4

3

3

 

 

10

Ol. Marseille

 

1

1

4

3

9

Ol. Marseille

3

 

1

1

4

9

Bordeaux

 

 

4

 

4

8

Lille

 

 

4

3

 

7

Lille

 

4

3

 

 

7

Bordeaux

2

 

 

4

 

6

Monaco

3

3

 

 

 

6

PSG

 

4

 

 

 

4

PSG

4

 

 

 

 

4

Rennes

 

 

2

 

2

4

Rennes

 

2

 

2

 

4

Lens

 

 

 

2

1

3

Lens

 

 

2

1

 

3

Toulouse

 

 

 

 

3

3

Toulouse

 

 

 

3

 

3

Auxerrre

 

2

 

 

 

2

Auxerrre

2

 

 

 

 

2

Sochaux

1

1

 

 

 

2

Nancy

 

 

 

 

2

2

 

 

 

 

 

 

 

Sochaux

1

 

 

 

 

1

 

 

 

 

 

 

 

St. Etienne

 

 

 

 

1

1

INGLATERRA

Chelsea

2

4

5

5

4

20

Chelsea

4

5

5

4

4

22

Manchester United

5

3

3

4

5

20

Manchester United

3

3

4

5

5

20

Arsenal

4

5

4

2

2

17

Arsenal

5

4

2

2

3

16

Liverpool

1

2

1

3

3

10

Liverpool

2

1

3

3

2

11

Newcastle

3

1

 

 

 

4

Everton

 

2

 

 

1

3

Everton

 

 

2

 

 

2

Tottenham

 

 

1

1

 

2

Tottenham

 

 

 

1

1

2

Newcastle

1

 

 

 

 

1

ITÁLIA

Internacional

4

2

3

5

5

19

Internacional

2

3

5

5

5

20

Milan

3

5

4

3

2

17

Roma

4

 

4

4

4

16

Juventus

5

3

5

 

 

13

Milan

5

4

3

2

1

15

Roma

 

4

 

4

4

12

Juventus

3

5

 

 

3

11

Lazio

2

 

 

 

3

5

Fiorentina

 

 

 

1

2

3

Chievo

 

 

 

2

 

2

Lazio

 

 

 

3

 

3

Parma

1

1

 

 

 

2

Chievo

 

 

2

 

 

2

Udinese

 

 

2

 

 

2

Udinese

 

2

 

 

 

2

Fiorentina

 

 

 

 

1

1

Palermo

 

 

1

 

 

1

Palermo

 

 

 

1

 

1

Parma

1

 

 

 

 

1

Sampdoria

 

 

1

 

 

1

Sampdoria

 

1

 

 

 

1

PORTUGAL

Porto

5

5

4

5

5

24

Porto

5

4

5

5

5

24

Benfica

4

4

5

3

3

19

Sporting

3

3

4

4

4

18

Sporting

3

3

3

4

4

17

Benfica

4

5

3

3

2

17

Braga

 

1

2

2

2

7

Braga

1

2

2

2

 

7

Nacional

 

2

 

1

 

3

Vitória Guimarães

 

1

 

 

3

4

Vitória Guimarães

2

 

1

 

 

3

Nacional

2

 

1

 

 

3

Belenenses

 

 

 

 

1

1

Belenenses

 

 

 

1

 

1

Leiria

1

 

 

 

 

1

Marítimo

 

 

 

 

1

1

 

É possível perceber claramente que o Brasil tem o maior número de equipes nos dois períodos, o que por si só já seria um indicativo de uma dominância menor. O índice de Herfindahl-Hirschman normalizado confirma essa impressão, conforme pode ser verificado no quadro seguinte.

 

Índice de Herfindahl-Hirschman normalizado

País

2003-2007

2004-2008

Brasil

0,3753

0,2783

Alemanha

0,4835

0,6291

Espanha

0,5813

0,6972

França

0,5547

0,5714

Inglaterra

0,7338

0,8453

Itália

0,6234

0,6590

Portugal

0,8806

0,8358

 

É curioso observar que o IHH* aumentou em todos os países europeus, exceto em Portugal, cuja magnitude é altíssima (indicando um predomínio de três equipes nos primeiros lugares, praticamente em todos os anos). No Brasil, que tem o menor IHH* de todos os países selecionados, houve uma redução da dominância, apesar de o São Paulo ter sido campeão nos últimos três anos. Isso corrobora a avaliação proporcionada pelos indicadores de equilíbrio competitivo e reforça a constatação de o Brasil ter a maior competitividade no futebol profissional, dentre os países estudados, o que significa que a dominância de prazo mais longo no futebol brasileiro está diluída entre um número relativamente grande de equipes.

Desenvolvimento econômico e sistema financeiro

Arquivado em: Economia — Nelson @ 10:13 pm

Há alguns anos, todo trabalho de pesquisa sobre o sistema financeiro passava obrigatoriamente por um texto que se tornou um clássico: “Financial Aspects of Economic Development”, de J. Gurley e E. Shaw, publicado na American Economic Review em 1955. Enquanto alguns argumentavam que o desenvolvimento econômico levava ao desenvolvimento do sistema financeiro e outros diziam que a causalidade ocorria no sentido contrário, Gurley e Shaw mostraram que os dois eventos ocorriam mais ou menos simultaneamente.

Essa lembrança rápida ocorre para servir como base a uma reflexão sobre o que vem ocorrendo recentemente, principalmente na economia norte-americana. Se o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento do sistema financeiro ocorrem contemporaneamente, não seria razoável pensar que uma recessão econômica ocorreria mais ou menos simultaneamente com uma crise financeira?

Essa pergunta é suscitada por causa do diagnóstico do NBER, de que a economia norte-americana vem passando por um quadro recessivo desde dezembro de 2007. Essa situação é contemporânea da crise financeira que se iniciou com a crise dos empréstimos subprime e se alastrou nos EUA nos últimos meses. Então, tem sentido a afirmação de um grande número de economistas, de que a crise financeira vai ter ressonância na economia real? As duas crises já não estavam repercutindo entre si desde o final de 2007?

Se for assim, qual será o destino dos países emergentes como o Brasil?

Dezembro 9, 2008

O equilíbrio competitivo no campeonato brasileiro de futebol

Arquivado em: Economia, Futebol — Nelson @ 5:32 pm

 

O equilíbrio competitivo entre equipes que disputam campeonatos nacionais de futebol representa o grau de igualdade no desempenho dos times que participam dessas competições. Nesse sentido, a expressão refere-se à distribuição do potencial esportivo das equipes rivais, traduzindo uma medida do equilíbrio de forças entre elas, em cada temporada.

As equipes de futebol, como as firmas, competem entre si em campeonatos que representam um mercado sem entrada e saída de concorrentes (ao longo da disputa de cada campeonato), em busca da conquista de pontos que representam a participação de cada equipe no mercado. Nesse sentido, é possível utilizar algumas medidas que traduzem a dispersão de uma distribuição ou o grau de poder de mercado que existe nesses campeonatos. Neste último caso, um indicador particularmente interessante é o índice de Herfindahl-Hirschman.

O índice de Herfindahl-Hirschman é uma forma elaborada de mensurar a concentração industrial, levando em conta a participação relativa de todas as empresas da indústria. No caso de um campeonato de futebol, o índice é definido como:

IHH = \sum\limits_{i = 1}^N {s_i^2 } ,

onde si é a participação percentual dos pontos ganhos pela equipe i no campeonato de um determinado ano e N é o número de equipes participantes do campeonato em um determinado ano.

No contexto de uma indústria, o valor do IHH está entre 0 (número infinito de firmas, cada uma com exígua participação no mercado) e 1 (monopólio). Em um campeonato de futebol, as restrições impostas pelo número de equipes participantes e pelo sistema de pontuação fazem com que o IHH permaneça em um intervalo mais restrito. Para um campeonato com 20 equipes, o limite inferior do IHH é 0,05 (valor obtido em um campeonato perfeitamente equilibrado, onde cada equipe empata todos os seus jogos ou tem o mesmo número de vitórias, empates e derrotas que seus oponentes), enquanto o limite superior é 0,0684 (valor obtido em um campeonato perfeitamente desequilibrado, com a distribuição de pontos ganhos mais desigual possível – o time campeão vence todos os seus jogos; o segundo colocado vence todos os seus jogos, exceto contra o campeão; o terceiro colocado vence todos os seus jogos, exceto contra o campeão e o vice-campeão, e assim por diante).

O IHH tem uma amplitude menor do que aquelas geralmente encontradas nos estudos que mostram a concentração nos diversos setores industriais. Isso ocorre porque nenhuma equipe pode se apropriar da totalidade dos pontos de um campeonato, mas apenas dos pontos referentes aos jogos de que participa. Assim, apenas para fazer um paralelo com temas de economia industrial, uma firma monopolista pode deter a totalidade das vendas de um mercado, mas uma equipe pode, no máximo, apoderar-se da totalidade dos pontos que disputa, caso vença todos os seus jogos.

Considerando essas características, assim como para permitir comparações temporais e espaciais, construiu-se um IHH normalizado, que leva em conta os diferentes números de equipes participantes dos campeonatos, neutralizando eventuais alterações no limite inferior e no limite superior dos indicadores. Esse indicador modificado é definido como:


IHH* = {{IHH - IHH_{\inf } } \over {IHH_{\sup } - IHH_{\inf } }}\;,\quad 0 \le IHH* \le 1 .

 

O valor do indicador normalizado está dentro do intervalo fechado de 0 até 1, onde 0 representa um equilíbrio perfeito entre as equipes (que seria análogo a um mercado perfeitamente competitivo) e 1 indica um desequilíbrio máximo entre as equipes (que seria análogo a um mercado monopolista). Portanto, quanto mais próximo de zero for o IHH*, mais equilibrado é o campeonato, no sentido de que as equipes são bastante parecidas entre si.

Deve-se observar que o cálculo do equilíbrio competitivo só é possível quando o campeonato é disputado pelo sistema de pontos corridos, permitindo uma mensuração cuidadosa e passível de comparações ao longo do tempo e mesmo entre campeonatos. No caso do Brasil, esse sistema de pontuação iniciou-se em 2003 para a série A e em 2006 para a série B, facultando uma análise apenas para os últimos anos.

Os resultados encontrados para o campeonato brasileiro de futebol foram os seguintes:

 

IHH* do campeonato brasileiro de futebol

Divisão

2003

2004

2005

2006

2007

2008

Média

Série A

0,1129

0,1173

0,0867

0,1414

0,1299

0,1192

0,1179

Série B

 

 

 

0,0730

0,0741

0,1581

0,1017

 

Resumidamente, os resultados mostram que o equilíbrio competitivo da série A do campeonato brasileiro de futebol vem sendo bastante elevado desde 2003 e que o equilíbrio competitivo da série B é maior do que a série A, exceto em 2008, quando a participação do Corínthians na série B levou a um desequilíbrio na disputa, tamanha a diferença na qualidade das equipes.

Para efeito de comparação, os mesmos cálculos foram feitos para alguns campeonatos europeus. Os resultados estão resumidos no quadro a seguir, onde são apresentadas apenas as médias dos últimos seis campeonatos (2002-2003 a 2007-2008).

Em comparação com alguns países europeus, o equilíbrio competitivo do futebol brasileiro é nitidamente maior. Além disso, é possível notar o mesmo padrão de equilíbrio competitivo superior da série B em todos os países europeus cobertos pelo estudo.

 

IHH* dos campeonatos europeus de futebol

(média dos últimos 6 campeonatos)

Países

Série A

Série B

Alemanha

0,2021

0,1388

Espanha

0,1797

0,1039

França

0,1482

0,1303

Inglaterra

0,2755

0,1361

Itália

0,2721

0,1610

Portugal

0,3215

0,1822

 

As explicações para o maior equilíbrio competitivo do campeonato brasileiro em relação aos campeonatos europeus têm algum fundamento econômico, mas são complexas. No Brasil, pelo menos até agora, os plantéis das equipes vêm-se assemelhando cada vez mais, pois nenhuma delas tem condições financeiras de concorrer com as ofertas que os atletas em ascensão recebem do exterior. Dessa forma, com raras exceções, as equipes têm um foco nacional e há um nivelamento por baixo da qualidade do futebol que vem sendo praticado no país, nos últimos anos. Além disso, por conta de problemas diversos (segurança nos estádios, televisionamento dos jogos), nas grandes capitais a presença do público (e consequentemente a pressão das torcidas em favor das equipes das grandes capitais) vem diminuindo. Nas cidades menores e em outras regiões do país esses fenômenos ocorrem em menor escala, favorecendo as equipes que jogam em casa e que contam com o apoio presencial de seus torcedores. Além disso, as equipes das grandes capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, geralmente defrontam-se em estádios maiores, como o Morumbi e o Maracanã, abrindo mão, de certa forma, da vantagem de jogar em casa. Nesses locais, as torcidas dividem mais ou menos igualmente as arquibancadas, deixando de ser um fator decisivo para a vitória de seus times.

Em relação à série B, as razões provavelmente são um pouco diferentes. Os poucos craques que permanecem no país, geralmente estão em equipes da série A. Ou seja, com exceção do que ocorreu em 2008 no Brasil, os elencos das equipes da série B são realmente bastante limitados e muito semelhantes, fazendo com que a folha de pagamento dessas equipes seja, em geral, relativamente modesta. Isso reflete (e realimenta) o reduzido poder financeiro dessas equipes e a contratação de patrocínios pouco importantes. De outro lado, é possível que o fator campo seja muito mais decisivo nas disputas da série B. Como as equipes, com raras exceções, são relativamente limitadas, seus estádios tornam-se um fator decisivo no resultado dos jogos. Em conseqüência, é possível que o aproveitamente nos jogos em casa tenda a ser maior, contribuindo para um equilíbrio competitivo mais acentuado do que na série A. Ademais, os personagens dos jogos – atletas, árbitro, auxiliares de arbitragem e mesmo dirigentes – ficam menos expostos à mídia, de modo que a presença das torcidas tem um papel mais forte do que o desses personagens.

Dezembro 2, 2008

Jornalismo econômico

Arquivado em: Economia, Jornalismo — Nelson @ 4:30 pm

 

A edição de hoje (2/12/2008) do jornal Folha de São Paulo traz em sua manchete e na matéria principal do caderno Dinheiro algumas afirmações , assinadas pelo jornalista Sérgio Dávila, de Washington, que vão embaraçar professores que ouvirem seus alunos pedindo esclarecimentos a respeito do assunto:

1. desde dezembro de 2007 a atividade econômica nos EUA está oficialmente em recessão;

2. o NBER (National Bureau of Economic Reseach) é uma ONG (organização não governamental);

3. o NBER é uma espécie de instituto de meteorologia econômica ao contrário, pois prevê o passado.

 

É claro que a discussão sobre o caráter oficial da recessão pode gerar algumas polêmicas, principalmente porque muitos jornais vêm repetindo essa toada, provavelmente criada por agências de notícias. A frase de abertura (A recessão americana é “oficial”) do artigo de Vinicius Torres Freire no caderno Dinheiro, também de 2/12/2008, transmite o verdadeiro caráter do diagnóstico do NBER (que não é oficial coisa nenhuma, embora seja respeitadíssimo), ao colocar entre aspas um termo cujo rigor deve ser questionado sempre que necessário.

Contudo, a caracterização feita pelo jornal (e por seu correspondente de Washington) sobre o NBER é descuidada, quando confunde organização privada com organização não governamental, e pouco competente, ao falar em meteorologia econômica e previsão do passado. Para entender melhor a natureza e os objetivos do NBER, assim como para conhecer o trabalho e as publicações que essa instituição produz desde 1920, bastaria que algum estagiário do jornal acessasse o site http://nber.org, buscando informações corretas.

Novembro 29, 2008

Anatomia de um jogo de futebol

Arquivado em: Estatística, Futebol — Nelson @ 9:31 am

Peter Webb apresenta respostas para alguns dos mitos e mistérios dos jogos de futebol, com base em estatísticas organizadas desde o início da década de 80. Ele traz argumentos para questões como “a equipe que joga em casa tem uma vantagem significativa?” ou “por que algumas equipes têm mais penalidades máximas a seu favor do que outras equipes?” Embora suas observações se refiram aos campeonatos ingleses, é bem provável que suas conclusões sejam válidas para o futebol de outros países. De qualquer forma, seus comentários são leves e bem-humorados, merecendo ao menos uma leitura rápida por parte daqueles que gostam de futebol. Link: http://www.probabilitytheory.info/topics/anatomy_of_soccer_match_myths.htm

Economia dos esportes é coisa séria!

Arquivado em: Economia, Esportes, Futebol — Nelson @ 9:28 am

Para quem tem dúvidas sobre a importância da economia dos esportes, e particularmente da economia do futebol, é bom conferir o link das publicações da IASE – International Association of Sports Economists. Os mais rabugentos poderão encontrar, entre as dezenas de working papers disponíveis, até alguns estudos assinados por ícones da esquerda tupiniquim. Link: http://ideas.repec.org/s/spe/wpaper.html

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